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 O jornal Brasil Econômico publicou, no dia 29 de janeiro, uma interessante reportagem sobre o efeito das mudanças climáticas em vários setores de negócios.

Não apenas no cenário da agricultura, evidentemente afetado pelas alterações extremas de temperatura, pelas chuvas mais intensas e por longos períodos de estiagem, mas também em empresas de vestuário, na indústria de construção civil e outros empreendimentos, as novas circunstâncias do clima estão exigindo mudanças aceleradas em processos, tecnologias e produtos. Sejam essas circunstâncias produzidas ou agravadas pela ação humana sobre o ambiente, ou sejam causadas por eventos cíclicos como “El Niño”, a realidade não permite acomodação.

As empresas que atentaram para os alertas que vêm sendo anunciados pela comunidade científica adaptam-se com mais eficiência e menos custo. As demais, como se diz no jargão, têm que “correr atrás do prejuízo”. A necessidade de adaptação às mudanças ambientais é apenas uma das condições para a sobrevivência de muitos negócios. A se agravarem as condições climáticas, e na contingência de se concretizarem as previsões mais pessimistas, é bastante provável que aos fenômenos ambientais venham a se somar problemas sociais de difícil controle.

Essas perturbações do stablishment social já vêm ocorrendo na América do Sul na última década, em grande parte motivadas pelo descontentamento das populações de baixa renda com os resultados sociais das políticas de modernização de algumas economias da região, ocorridas nos primeiros anos deste século. A implantação de modelos de desenvolvimento baseados na redução do papel do Estado, com privatizações em larga escala de serviços essenciais, acelerou a integração de grandes fatias da população aos modernos sistemas de comunicação, atraiu as massas para as cidades médias e grandes, mas a concentração da riqueza se agravou na maioria dos países.

Informação costuma aumentar o senso crítico. Nos lugares onde os bons resultados econômicos, associados a políticas sociais de transferência direta de renda e ações de responsabilidade social empresarial, conseguiram amenizar os efeitos da concentração de riqueza, pode-se observar certa acomodação de demandas sociais. Mas naqueles países onde o investimento atraido pela oferta de bens públicos não produziu um aumento da percepção geral de bem-estar, o risco de polarizações políticas e conflitos sociais tende a se agravar.

Nesse cenário, as ações governamentais podem se tornar inócuas, dado o exagerado protagonismo de muitos governantes, que acabam sendo envolvidos no ambiente de radicalização política. Nessas circunstâncias, o papel da imprensa se torna crucial, na medida em que pode apontar pontos de convergência ou, ao contrário, contribuir para agravar as conflagrações.

Em alguns países da América Latina, como Colômbia, Paraguai, Bolívia e Chile, um número considerável de empresas – muitas delas com atuação continental ou transnacional – vem atuando fortemente para sobrepor os interesses sociais aos conflitos político-partidários. Na maioria dos casos, as ações são ainda isoladas e dependentes de certo voluntarismo, mas em outros pode-se constatar a existência de um movimento coordenado, guiado pelos mesmos princípios que marcam a atuação do Instituto Ethos no Brasil.

O Plarse – Programa Latino-Americano de Responsabilidade Social Empresarial – é a mais evidente dessas iniciativas. Apesar de atuarem em cenários onde o diálogo é comumente dificultado pela agressividade das disputas políticas, os agentes desse programa têm logrado resultados surpreendentes, como, por exemplo, na mobilização de representantes da imprensa em favor das campanhas de defesa do meio ambiente e das iniciativas de investimento social privado. Uma série de seminários realizados no ano passado mostrou o potencial de superação das divergências de cunho ideológico a partir de reflexões fundamentadas na visão de RSE. Na Bolívia, por exemplo, a tese de que a responsabilidade social empresarial pode contribuir para a elaboração de um projeto de nação que respeite a diversidade étnica e de vocações econômicas das diferentes regiões do país, permitiu estabelecer a base para um diálogo entre representantes de grupos antagônicos.

Adaptada a cada realidade nacional, essa proposta pode produzir o cenário adequado para a negociação de projetos de desenvolvimento sustentável baseados na realidade e não no discurso político. A RSE pode ser, além do que um caminho para a sustentabilidade, um modelo para a recomposição de dissidências que ameaçam a paz social.

*Matéria produzida por Luciano Martins Costa: Jornalista, apresentador do programa Observatório da Imprensa no Rádio, colunista do jornal Brasil econômico e consultor de estratégia de comunicação e sustentabilidade.

Fonte: RSE na Mídia - Rede Ethos de Jornalistas